[...] “o videocast funciona como uma ferramenta de comunicação essencial, enquanto as ações de Educação Permanente proporcionam um ambiente de reflexão e desenvolvimento dos ACS e ACE envolvidos na produção dos episódios.” Maurício Teles e José Jailson
Em 19 de novembro de 2024, foi ao ar o primeiro episódio do Podcast da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) “Fale com Agente”, resultado do projeto “Fale com Agente: uma estratégia para a promoção da equidade no trabalho em saúde”, iniciativa dos departamentos de Fonoaudiologia, Saúde Coletiva e Fisioterapia. Um projeto coordenado pelos professores Maurício Telles e José Jailson de Almeida Júnior. Em maio de 2025, o projeto foi integrado ao Observatório de RH-UFRN. Nesta entrevista, concedida ao Observatório RH-UFRN, em junho de 2025, os professores apresentam o projeto, as atividades desenvolvidas e a integração ao Observatório.
Observatório RH: O que motivou a criação do projeto “Fale com a Gente”? Maurício Teles e José Jailson: No final de 2023, a Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES/MS) lançou um chamamento público para o financiamento de projetos voltados ao enfrentamento das iniquidades no trabalho em saúde. A partir dessa iniciativa, concebemos um projeto que integrasse comunicação, educação permanente e pesquisa em saúde, com o propósito de abordar as desigualdades vivenciadas pelos trabalhadores da área.
Observatório RH: Como surgiu a ideia do nome “Fale com Agente” para o projeto? Maurício Teles e José Jailson: O projeto recebeu o nome "Fale com Agente", um trocadilho intencional para destacar os protagonistas dos nossos videocasts: Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e Agentes de Combate às Endemias (ACE). A abordagem adotada baseia-se na educomunicação, um conceito que une comunicação e educação em um ambiente democrático e colaborativo. Em vez de criar um videocast "para" os ACS e ACE, desenvolvemos um videocast "com" esses profissionais, que assumem o protagonismo e conduzem os episódios, tornando-se, assim, os principais agentes de transformação.
Observatório RH: Quais os principais objetivos do projeto? Maurício Teles e José Jailson: Nosso objetivo é formular estratégias de mudança em colaboração com os serviços de saúde, enfrentando iniquidades relacionadas a gênero, identidade de gênero, raça, etnia, sexualidade, etarismo, capacitismo e outras formas de discriminação. Para isso, o videocast funciona como uma ferramenta de comunicação essencial, enquanto as ações de Educação Permanente proporcionam um ambiente de reflexão e desenvolvimento dos ACS e ACE envolvidos na produção dos episódios. Além disso, realizamos pesquisas aprofundadas sobre essas temáticas e planejamos expandir as ações de Educação Permanente para os serviços de saúde.
Observatório RH: Quais as principais atividades desenvolvidas pelo projeto e como elas se articulam para combater as desigualdades no trabalho em saúde? Maurício Teles e José Jailson: O projeto tem três pilares principais: o videocast, a Educação Permanente em Saúde e a pesquisa. 1) Videocast: Principal ferramenta de comunicação do projeto, disponível no canal da Escola de Saúde Pública do RN (ESPRN). A parceria com a ESPRN visa ampliar o acesso ao conteúdo produzido, garantindo sua continuidade mesmo após o término do financiamento inicial. Além disso, mantemos um perfil ativo no Instagram (@falecomagente_ufrn), onde compartilhamos recortes dos episódios e materiais educativos. Recentemente, ampliamos a acessibilidade dos conteúdos ao disponibilizá-los também na plataforma Spotify. 2) Educação Permanente em Saúde: Estratégia educacional aplicada no contexto do trabalho, promovendo discussões e reflexões sobre as iniquidades que afetam os trabalhadores da saúde. Inicialmente, esse processo envolveu os ACS e ACE que conduzem os videocasts, mas há planos para expandi-lo aos serviços de saúde. 3) Pesquisa: Nossa atuação na pesquisa ocorre em diferentes frentes, incluindo o levantamento das principais iniquidades enfrentadas pelos trabalhadores da saúde e a análise da Educação Permanente como ferramenta de superação desses desafios. A integração dessas três estratégias visa não apenas dar visibilidade às iniquidades, mas também subsidiar a formulação de políticas e estratégias no âmbito da gestão do trabalho e da educação na saúde, promovendo mudanças concretas para reduzir as desigualdades.
Observatório RH: Como funciona o processo de produção do videocast e de que forma ele contribui para a sensibilização e transformação das relações de trabalho na saúde? Maurício Teles e José Jailson: A gravação dos episódios segue um modelo dinâmico: a cada quatro episódios, convidamos uma nova dupla de ACS e/ou ACE para conduzi-los. Buscamos sempre diversificar as formações das duplas para tornar a experiência mais rica e envolvente. A escolha dos temas surge das discussões promovidas durante o processo de Educação Permanente. Todos os integrantes do projeto – pesquisadores, estudantes, ACS e ACE –contribuem com sugestões para a definição dos conteúdos e dos especialistas convidados. Antes das gravações, realizamos uma reunião de pauta, na qual organizamos o roteiro e alinhamos os detalhes da produção. Ao utilizar o videocast como ferramenta de difusão e tradução do conhecimento, conseguimos ampliar o debate sobre temas pouco abordados nos serviços de saúde, mas vivenciados cotidianamente pelos trabalhadores. Esse processo promove visibilidade, problematização e estímulo à formulação de estratégias para superar as barreiras existentes, contribuindo para a sensibilização e transformação das relações de trabalho.
Observatório RH: Quem participa da produção dos episódios e como se dá a escolha dos temas abordados? Maurício Teles e José Jailson: A gravação e edição dos episódios são realizadas por um estúdio contratado, garantindo qualidade técnica na produção do conteúdo. Já a definição dos temas e roteiros é feita de forma colaborativa pelos integrantes do projeto, considerando os debates e aprendizados provenientes da Educação Permanente, que ocorreu entre setembro de 2024 e abril de 2025. Com o término desse primeiro ciclo de formação, planejamos expandir o alcance das discussões para os serviços de saúde, fortalecendo ainda mais o impacto da iniciativa.
Observatório RH: Quais resultados o projeto tem alcançado até agora? Maurício Teles e José Jailson: Até o momento, já gravamos 25 episódios, acumulamos mais de 1200 seguidores no Instagram e atingimos mais de 140 mil visualizações nos últimos 90 dias. Esses números demonstram o potencial das mídias digitais como ferramentas de comunicação e tradução do conhecimento em saúde.
Observatório RH: E os próximos passos? Maurício Teles e José Jailson: Estamos em fase de coleta de dados para pesquisas e produção de dois materiais complementares: um e-book sobre o projeto e seus temas centrais, e um manual de Educação Permanente, voltado para a formulação de estratégias de enfrentamento das iniquidades no trabalho em saúde. A intenção é que esses materiais sirvam de referência para a implementação de ações nos serviços de saúde, inspirando-se na experiência do projeto.
Observatório RH: Por que integrar o “Fale com a Gente” ao Observatório RH-UFRN? Maurício Teles e José Jailson: A equipe do projeto acumulou conhecimento e experiência significativos na interseção entre Educação Permanente e Comunicação em Saúde. Considerando essa expertise, buscamos expandir nosso escopo de atuação e explorar novas possibilidades a partir desse acúmulo. Isso poderá ser realizado até mesmo para projetos em desenvolvimento no Observatório. O Observatório RH-UFRN para nós é uma referência nacional na pesquisa e implementação de estratégias no campo da gestão do trabalho e da educação na saúde. Diante disso, acreditamos que essa parceria permitirá um intercâmbio enriquecedor, fortalecendo nosso projeto tanto na fundamentação teórica, quanto no alcance das ações desenvolvidas.